Dois Anos de Leis&Letras: Quando a Teimosia Vira História
Por que revisitar 2008 importa
| Aspecto | Início (Encarte) | Ano II (Consolidada) |
|---|---|---|
| Formato | Encarte do O Povo | Revista independente |
| Alcance | Regional (Ceará) | Nacional (Brasil) |
| Identidade visual | Vinculada ao jornal | Cara nova a partir da edição 12 |
| Proposta editorial | Experimental | Direito e Jornalismo consolidados |
Revisitar os dois anos da Leis&Letras me faz entender algo que só o tempo ensina: toda publicação séria nasce da teimosia. Quando comecei esse projeto como encarte do O Povo, não imaginava que estaríamos aqui, na décima segunda edição, com identidade própria e um público fiel. Essa trajetória prova que unir Direito e Jornalismo não é utopia acadêmica, é trabalho diário. E é sobre esse aprendizado, os planos concretizados e os que ainda persigo, que quero conversar com você neste artigo.
Dois anos. Parece pouco, né? Mas no mundo das publicações brasileiras, completar o segundo aniversário é tipo sobreviver ao Everest de chinelo. E a Leis&Letras não só sobreviveu – ela começou a respirar com os próprios pulmões.
Do encarte do O Povo para o Brasil inteiro (ou: como tudo começou)
Lembro como se fosse ontem. Ricardo Bacelar, Manoela Queiroz e eu sentados numa mesa, bolando uma página jurídica pro jornal O Povo. A gente queria simplesmente dar voz pra produção jurídica do Ceará que, convenhamos, vivia apagada no noticiário.
Deu certo. Tão certo que a página virou encarte. E o encarte virou 30 mil exemplares circulando no Dia do Advogado. Foi aí que bateu aquela pulga atrás da orelha: por que não fazer uma revista de verdade?
Mas não uma revista qualquer. O mercado já tinha publicações demais – ou eram aquelas coisas ultra acadêmicas que só professor de doutorado entendia, ou eram superficiais demais, cheias de modelinho de petição e dica de como organizar escritório. Cadê a ponte entre o Direito de verdade e a informação que o cidadão comum precisa?
Foi aí que resolvi bancar a ideia sozinho. E olha, tinha dia que eu me perguntava se não era loucura mesmo.

O tal do “Ano II” – ou por que não morremos
Você sabia que a maioria esmagadora das revistas brasileiras não passa do segundo ano? A própria Associação Nacional dos Editores de Revista confirma isso. É como se o segundo aniversário fosse uma peneira gigante que separa o joio do trigo.
Pra nós, 2008 não foi o fim – foi o divisor de águas. Foi quando provamos que o modelo funcionava. Como?
Primeiro: vendemos assinaturas em quase todas as capitais brasileiras. Saímos da bolha cearense e viramos nacionais de fato.
Segundo: entramos nas grandes livrarias, nas bibliotecas das faculdades de Direito que importam, nos corredores dos tribunais superiores em Brasília. A revista começou a circular onde as decisões são tomadas.
Terceiro: magistrados, defensores públicos, advogados de peso começaram a nos procurar. O reconhecimento veio.
A edição que mudou tudo: número 12
A edição de aniversário foi especial. Até hoje me emociono quando lembro. A capa trazia Ulysses Guimarães – 20 anos da Constituição Cidadã pediam esse tributo. E o tema? “Justiça, para quem precisa”. Direto, sem rodeios, questionando o abismo entre o papel e a vida real.
Olha só o que a gente botou naquela edição:
Acesso à Justiça: Denunciamos que Santa Catarina era o único estado sem Defensoria Pública instalada. Em pleno 2008! Como pode? Um estado inteiro deixando sua população sem assistência jurídica gratuita.
Crime Organizado: Alexandre de Moraes (que hoje é ministro do STF) propôs a criação dos Conselhos Estaduais de Inteligência contra o crime organizado. Visão de futuro pura.
Marketing Jurídico: Rodrigo Bertozzi, lá de São Paulo, deu 11 dicas pra advogado não morrer no mercado. Lembrando que já éramos 670 mil advogados no Brasil. A concorrência já era braba.
Direito das Famílias: Maria Berenice Dias mandou a real. Ela falou daquilo que eu ainda vejo hoje no meu escritório – “a melancólica incapacidade do Judiciário de fazer justiça”. E defendeu o afeto como critério mais importante que a biologia. Revolucionário pra época.

Quando a revista ganhou cara nova
Alessandro Muratore assumiu o projeto gráfico e fez mágica. A gente precisava de uma cara mais madura, mais sofisticada. Afinal, o conteúdo pesava, precisávamos de uma embalagem à altura.
Trocamos tudo. Tipografia sem serifa, mais contemporânea. Elementos visuais que guiavam a leitura sem poluir. O próprio Alessandro resumiu bem: “A principal diferença é a leveza visual“. E era isso mesmo – queríamos que o leitor respirasse melhor ao folhear a revista.
Direito + Jornalismo = Casamento possível?
Vou ser honesto com vocês: juntar Direito e Jornalismo não é moleza. De um lado, temos um Judiciário fechado, cheio de “advoguês” que afasta qualquer pessoa normal. Do outro, jornalistas que não manjam dos meandros jurídicos e muitas vezes simplificam demais.
A Leis&Letras nasceu pra ser essa ponte. E funcionou porque a gente nunca abriu mão de duas coisas ao mesmo tempo: rigor técnico + clareza jornalística. Não é fácil, mas é possível.
Os planos que tínhamos (e alguns se concretizaram)
Naquele 2008, a gente já planejava o futuro. Queríamos abrir espaço pra colaborações – artigos de estudantes, de advogados, de juízes. Queríamos ser um fórum aberto, onde o debate acontecesse de verdade.
E tinha o sonho da publicidade. Uma revista consolidada como a nossa era o veículo ideal pra anunciantes que queriam atingir um público diferenciado: advogados, juízes, empresários, gestores. Marketing de foco, de resultado. Público com alto poder aquisitivo e formador de opinião.

O que aprendi nessa jornada
Editar uma revista de circulação nacional saindo do Ceará – um estado com índices terríveis de leitura – foi desafio e tanto. Teve dia que pensei em desistir. Teve mês que o caixa apertou. Teve impressão gráfica que atrasou e quase me deu infarto.
Mas sabe o que me segurou? A certeza de que estávamos fazendo algo importante. Não era só uma revista jurídica. Era um projeto de democratização do conhecimento. Era devolver ao cidadão o Direito que é dele, mas que sempre foi sequestrado por uma linguagem inacessível.
Por que isso ainda importa hoje
Olho pra trás e vejo que aqueles dois anos foram a fundação de tudo que veio depois. A Leis&Letras provou que dá pra fazer jornalismo jurídico sério sem ser chato. Dá pra respeitar o leitor sem subestimá-lo. Dá pra unir rigor técnico com clareza informativa.
E mais importante: provamos que o Direito não pode ficar trancado nas prateleiras empoeiradas dos tribunais. Ele precisa descer pra rua, conversar com a dona Maria, com o seu João, com o estudante que ainda tá tentando entender o que é devido processo legal.
O legado que fica
Se tem uma coisa que orgulho dessa trajetória toda é ter criado um espaço onde o Direito conversa de igual pra igual com a sociedade. Não é o Direito que se acha superior, que usa latinzinho pra impressionar. É o Direito que serve, que explica, que transforma.
Porque no fim das contas, mais do que leis, a gente sempre entregou a chave pra compreendê-las. E essa chave se chama informação de qualidade, acessível, mas sem nunca abrir mão da seriedade.
Dois anos foram só o começo. O resto da história você já conhece – ou vai conhecer nas próximas edições desta seção “Minha Trajetória na Advocacia Cearense“.
E você, que está lendo isso agora: já parou pra pensar em quantos “anos II” você sobreviveu na sua carreira? Quantas vezes você estava no limite e decidiu continuar?
Pois é. A gente é feito disso – de teimosa persistência e fé no que faz.
Perguntas Frequentes
Como a Leis&Letras começou?
A revista nasceu como um encarte do jornal O Povo, pensado inicialmente para um público local. Com o tempo, o projeto ganhou fôlego próprio e passou a alcançar leitores de todo o Brasil interessados na relação entre Direito e Jornalismo.
Por que a edição número 12 foi tão importante?
A edição 12 marcou uma virada visual e editorial significativa. Foi quando a revista ganhou uma nova identidade gráfica, consolidando sua maturidade e diferenciando-se do formato inicial de encarte.
É possível unir Direito e Jornalismo de forma eficaz?
Sim, e a própria trajetória da revista comprova isso. A combinação exige rigor técnico jurídico aliado à clareza e ao apelo narrativo do jornalismo, criando conteúdo acessível sem perder a precisão legal.
Quais planos iniciais realmente se concretizaram?
Vários objetivos traçados no início, como expandir o alcance para além do público regional e criar uma identidade editorial própria, foram alcançados ao longo desses dois anos de existência da publicação.
Qual o principal legado desses dois anos?
O legado está em provar que publicações especializadas em Direito podem ter linguagem jornalística envolvente, sobrevivendo e crescendo mesmo em um mercado editorial brasileiro historicamente desafiador.
Dr. Marcos Duarte
Advogado · OAB/CE 15.358 · Especialista em Direito de Família e Sucessões
Fundador do Leis&Letras IA e da Revista Leis&Letras. Fundador e Ex Presidente do IBDFAM CE. Atua há mais de 24 anos em Direito de Família, Divórcio, Guarda e Inventários em Fortaleza/CE.





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