Recusa de Exame de DNA na Ação de Paternidade
Filho Pode Recusar Fazer Exame de DNA em Ação de Paternidade?
Sim, o investigado pode recusar-se a realizar o exame de DNA em ação de investigação de paternidade, já que nenhuma pessoa é obrigada a submeter-se à coleta de material genético contra sua vontade. Mas essa recusa não passa impune. Conforme a Súmula 301 do STJ, quando o investigado se nega a fazer o teste e existem outras provas que indiquem o vínculo biológico, forma-se presunção de paternidade que pode ser suficiente para a procedência da ação, transferindo ao réu o peso de derrubar essa presunção.
Trabalho com direito de família há anos e vejo essa dúvida aparecer com frequência tanto de investigados quanto de mães que buscam o reconhecimento de paternidade. A ideia de que “recusar o exame resolve o problema” é um mito perigoso. Na prática, muitas vezes a recusa é pior para o investigado do que simplesmente fazer o teste, porque o juiz não fica de mãos atadas diante da negativa.
Por Que Existe o Direito de Recusa ao Exame de DNA?

O exame de DNA envolve a coleta de material biológico, geralmente sangue ou saliva, e isso toca diretamente na integridade física e na intimidade da pessoa. Por essa razão, o ordenamento jurídico brasileiro não permite que se force alguém a se submeter ao procedimento, respeitando o princípio da dignidade da pessoa humana e a inviolabilidade corporal.
Essa proteção está alinhada com o artigo 5º, incisos II e X, da Constituição Federal, que garante liberdade e proteção à intimidade. Ninguém pode ser obrigado a fazer algo contra a própria vontade sem previsão legal expressa, e não existe lei determinando a coleta forçada de material genético em ações de paternidade.
Isso não significa, porém, que a recusa seja um caminho seguro ou vantajoso. O sistema jurídico criou mecanismos para evitar que a simples negativa transforme a ação em instrumento inútil de defesa.
A Súmula 301 do STJ e Seus Efeitos Práticos

A Súmula 301 do Superior Tribunal de Justiça estabelece que a recusa do investigado em submeter-se ao exame de DNA induz presunção juris tantum de paternidade. Isso significa uma presunção relativa, que pode ser afastada por prova em contrário, mas que já favorece o autor da ação desde o início.
Na prática, funciona assim: se a mãe ajuíza a ação de investigação de paternidade apresentando testemunhas, fotos, mensagens, provas de relacionamento na época da concepção e o investigado se recusa a fazer o exame, o juiz pode considerar que essa recusa, somada às demais provas, é suficiente para reconhecer a paternidade.
Atendi um caso em que o investigado simplesmente não comparecia às datas marcadas para coleta, sob diversas justificativas. O juiz, após a segunda tentativa frustrada, interpretou o comportamento como recusa tácita e aplicou a presunção da Súmula 301, associada a depoimentos de testemunhas que confirmavam o relacionamento entre as partes na época provável da concepção. A paternidade foi reconhecida.
O Que Diz o Código de Processo Civil Sobre a Recusa

O artigo 231 do Código Civil e o artigo 400 do CPC tratam da recusa em submeter-se a exame médico necessário, estabelecendo que ela pode suprir a prova que se pretendia obter com o exame. Ou seja, o próprio comportamento de resistência do investigado é interpretado como elemento probatório contra ele.
Além disso, o artigo 2º-A da Lei 12.004/2009, que trata especificamente da investigação de paternidade, prevê expressamente que a recusa em fazer o exame de DNA gera presunção de paternidade, a ser apreciada em conjunto com o contexto probatório dos autos. Essa lei consolidou entendimento que já vinha sendo aplicado pelos tribunais antes mesmo de sua edição.
Tabela Comparativa: Recusa x Realização do Exame de DNA
| Situação | Efeito Jurídico | Base Legal |
|---|---|---|
| Investigado realiza o exame e resultado é positivo | Paternidade reconhecida com certeza científica | Prova técnica direta |
| Investigado realiza o exame e resultado é negativo | Ação improcedente, salvo fraude comprovada | Prova técnica direta |
| Investigado recusa-se, sem outras provas | Presunção relativa, análise do conjunto probatório | Súmula 301 STJ |
| Investigado recusa-se, com provas robustas de relacionamento | Alta probabilidade de reconhecimento da paternidade | Súmula 301 STJ + Lei 12.004/2009 |
| Investigado comparece mas dificulta o processo repetidamente | Interpretado como recusa tácita | Jurisprudência consolidada |
O Papel das Provas Complementares na Ação
O exame de DNA é a prova mais robusta em ações de paternidade, mas não é a única admitida. A ação pode ser instruída com depoimentos de testemunhas, documentos, fotografias, registros de convivência, mensagens de aplicativos e até indícios de relacionamento amoroso na época da concepção.
Quando a recusa ao exame se combina com esse tipo de prova, o juiz tem elementos concretos para formar seu convencimento, ainda que sem o resultado laboratorial. Já vi decisões que citam expressamente o comportamento do réu durante a instrução processual, como evasivas em audiência ou contradições no depoimento, como reforço à presunção da Súmula 301.
Por outro lado, se a ação se apoia exclusivamente na recusa, sem qualquer outro elemento que aproxime as partes, a defesa pode argumentar fragilidade probatória. A presunção não é absoluta e pode ser afastada quando não há consistência no conjunto de provas.
Erros Comuns Cometidos Por Investigados
Um erro recorrente é acreditar que ignorar as intimações judiciais resolve o problema. Isso não funciona. O processo segue seu curso mesmo com a ausência do réu, e a revelia, combinada com a recusa ao exame, pode ser interpretada de forma extremamente desfavorável.
Outro erro é confundir recusa com estratégia processual eficaz. Alguns investigados acreditam que, ao recusar o exame, “não existe prova” contra eles. Essa lógica ignora completamente o teor da Súmula 301 e a possibilidade de o juiz decidir com base em presunções e provas indiretas.
Também é comum o investigado tentar procrastinar indefinidamente, faltando às datas de coleta sem justificativa razoável. Os tribunais já entendem que a reiteração de faltas sem motivo idôneo equivale à recusa expressa, encerrando qualquer vantagem que a procrastinação poderia trazer.
Dicas Para Quem Está Sendo Investigado
Se você foi citado em ação de investigação de paternidade, o primeiro passo é buscar orientação jurídica especializada antes de tomar qualquer decisão sobre o exame. Recusar sem avaliar o cenário probatório completo pode ser uma decisão precipitada.
Avalie com seu advogado se existem outras provas nos autos que já indicam vínculo com a mãe da criança na época da concepção. Se essas provas são fortes, recusar o exame provavelmente só vai antecipar uma condenação que o próprio teste poderia confirmar de forma mais rápida e menos desgastante.
Se você tem dúvidas genuínas sobre a paternidade e nenhuma relação com a mãe no período relevante, o exame de DNA costuma ser o caminho mais seguro para encerrar a controvérsia definitivamente, evitando anos de litígio baseados em presunções.
Consequências Além do Reconhecimento da Paternidade
Reconhecida a paternidade, decorrem obrigações como pensão alimentícia, direito a herança e inclusão do nome do pai no registro civil da criança. O artigo 1.696 do Código Civil trata do dever de sustento entre pais e filhos, obrigação que retroage à data da citação na maioria dos casos envolvendo alimentos.
Há também repercussões emocionais e sociais significativas, tanto para o filho quanto para o investigado, que muitas vezes só compreende a extensão dos efeitos jurídicos quando a sentença já foi proferida. Por isso, decisões tomadas no calor da citação, sem orientação adequada, costumam gerar arrependimento posterior.
Considerações Finais
A recusa ao exame de DNA é um direito, mas está longe de ser garantia de vitória processual. A Súmula 301 do STJ, a Lei 12.004/2009 e o CPC formam um conjunto normativo que impede que a simples negativa transforme a ação em instrumento sem efetividade. Se você está enfrentando essa situação, busque orientação jurídica especializada antes de decidir qualquer estratégia processual, avaliando cuidadosamente o conjunto de provas já existente nos autos.
Dr. Marcos Duarte
Advogado · OAB/CE 15.358 · Especialista em Direito de Família e Sucessões
Fundador do Leis&Letras IA e da Revista Leis&Letras. Fundador e Ex Presidente do IBDFAM CE. Atua há mais de 24 anos em Direito de Família, Divórcio, Guarda e Inventários em Fortaleza/CE.





Publicar comentário