Avós Pagam Pensão Alimentícia aos Netos? Entenda
Sogros Podem Ser Obrigados a Pagar Pensão Alimentícia aos Netos?
Sim, mas não é regra automática. Os avós só pagam alimentos avoengos de forma complementar e subsidiária, quando o pai ou a mãe comprovadamente não têm condições financeiras de sustentar o filho, e mediante decisão judicial específica. Não basta o genitor estar desempregado ou reclamar dificuldades momentâneas: é preciso demonstrar, com provas concretas, que ele esgotou suas possibilidades de contribuir e que os avós possuem patrimônio ou renda compatível para suprir essa lacuna. Trata-se de uma obrigação excepcional, e não de uma extensão natural do dever de sustento dos pais.
O que diz a lei sobre a obrigação alimentar dos avós

O Código Civil, em seu artigo 1.696, estabelece que o direito à prestação de alimentos é recíproco entre pais e filhos, estendendo-se aos ascendentes na ordem de proximidade do parentesco. Isso significa que, na falta ou impossibilidade dos pais, os avós entram na linha sucessória da obrigação alimentar — mas somente depois de esgotadas as tentativas de cobrança contra o genitor devedor.
Já o artigo 1.698 do mesmo diploma legal traz a base jurídica mais importante para esse tema: quando o parente que deveria prestar alimentos não estiver em condições de suportar totalmente o encargo, serão chamados a concorrer os de grau imediato. É exatamente esse dispositivo que fundamenta a chamada obrigação subsidiária dos avós.
Vale entender que essa responsabilidade não é solidária, mas sim subsidiária e complementar. Isso quer dizer que os avós não respondem pela integralidade da pensão, mas apenas pela diferença entre o que o pai consegue pagar e o que a criança efetivamente necessita para viver com dignidade.
Diferença entre obrigação solidária e subsidiária

Muita gente confunde os dois conceitos, e essa confusão gera expectativas equivocadas em processos judiciais. Explico a diferença de forma prática:
Na obrigação solidária, qualquer devedor pode ser cobrado pelo valor total da dívida, independentemente da situação dos demais. Já na obrigação subsidiária e complementar dos avós, a cobrança só acontece depois de comprovada a insuficiência do devedor principal, e o valor é limitado à diferença necessária.
Um exemplo real ajuda a ilustrar: imagine que uma criança precise de R$ 2.000,00 mensais para suas despesas básicas — moradia, escola, saúde, alimentação. O pai, mesmo empregado, só consegue pagar R$ 800,00 porque tem renda baixa e outros filhos para sustentar. Nesse caso, o juiz pode determinar que os avós paternos complementem os R$ 1.200,00 restantes, desde que comprovem capacidade financeira para isso.
Requisitos para que os avós sejam obrigados a pagar

Para que a Justiça determine essa complementação, alguns requisitos precisam estar presentes simultaneamente. Não basta alegar dificuldade financeira do genitor: é necessário comprovação documental robusta.
O primeiro requisito é a impossibilidade real do genitor de arcar com o sustento integral do filho. Isso é verificado por meio de declaração de imposto de renda, extratos bancários, carteira de trabalho, ou mesmo prova de desemprego prolongado e ausência de patrimônio.
O segundo requisito é a comprovação da capacidade financeira dos avós. O juiz vai analisar se eles possuem renda, imóveis, aplicações ou qualquer patrimônio que permita arcar com a complementação sem comprometer sua própria subsistência.
O terceiro ponto, muitas vezes esquecido, é que a ação deve ser movida corretamente, incluindo o genitor no polo passivo junto com os avós, ou em ação autônoma após frustrada a execução contra o pai. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) já pacificou entendimento nesse sentido, exigindo o litisconsórcio passivo necessário entre o alimentante principal e o avô, salvo hipóteses excepcionais em que o genitor já é falecido ou está em local incerto.
Como funciona o processo judicial
Quando os pais entram com uma ação de alimentos avoengos, o caminho processual costuma seguir algumas etapas. Primeiro, tenta-se a execução ou revisão da pensão contra o genitor devedor. Se essa tentativa se mostrar infrutífera — por exemplo, o pai não tem bens penhoráveis, está desempregado há meses ou comprovadamente não tem como pagar — parte-se para a inclusão dos avós no processo.
O juiz, então, determina perícia ou solicita documentos que comprovem a renda e o patrimônio dos avós. Isso pode incluir declaração de bens, extratos bancários, contracheques, ou até mesmo investigação sobre imóveis registrados em nome deles.
Um erro comum que vejo em escritórios de advocacia é tentar acionar os avós diretamente, sem antes esgotar as tentativas contra o genitor. Isso quase sempre resulta em improcedência do pedido, porque fere o princípio da subsidiariedade estabelecido no artigo 1.698 do Código Civil.
| Aspecto | Obrigação dos Pais | Obrigação dos Avós |
|---|---|---|
| Natureza | Principal e direta | Subsidiária e complementar |
| Fundamento legal | Art. 1.696 do CC | Art. 1.698 do CC |
| Valor devido | Integral, conforme necessidade | Apenas a diferença não coberta |
| Requisito prévio | Nenhum, é obrigação direta | Comprovação de insuficiência do genitor |
| Processo | Ação de alimentos comum | Litisconsórcio com o genitor devedor |
Erros comuns em ações de alimentos avoengos
Ao longo dos anos acompanhando casos assim, percebo alguns equívocos que se repetem e prejudicam quem busca essa complementação na Justiça.
O primeiro erro é achar que basta o pai estar desempregado para acionar os avós imediatamente. A Justiça exige comprovação de esgotamento real das possibilidades, não apenas uma situação temporária ou contornável.
O segundo erro é não incluir o genitor devedor na ação. Como mencionei, o STJ consolidou o entendimento de que os avós só podem ser chamados a integrar a lide em litisconsórcio passivo necessário com o alimentante principal, exceto em casos excepcionais.
O terceiro erro é superestimar a capacidade financeira dos avós sem provas concretas. Muitos processos são julgados improcedentes porque a parte autora não conseguiu demonstrar, documentalmente, que os avós tinham condições reais de arcar com a complementação.
Por fim, um erro recorrente é ignorar que essa obrigação pode ser revista a qualquer momento. Se a situação financeira do pai melhorar, os avós podem pedir a exoneração da pensão complementar, já que sua responsabilidade tem caráter temporário e condicional.
Avós maternos e paternos: quem responde primeiro?
Uma dúvida frequente é sobre a ordem de chamamento quando existem avós tanto do lado paterno quanto materno. A regra geral, extraída do artigo 1.697 do Código Civil, estabelece que a obrigação recai primeiro sobre os ascendentes mais próximos do genitor que está inadimplente.
Ou seja, se o pai é quem não consegue pagar, a complementação será cobrada, em regra, dos avós paternos — pais dele. Isso porque a lógica do parentesco segue a linha do devedor original. Os avós maternos só entrariam na história se, por algum motivo excepcional, ambos os genitores estivessem impossibilitados de arcar com o sustento do filho.
Dicas práticas para quem está enfrentando essa situação
Se você é mãe ou pai e pretende buscar essa complementação junto aos avós, reúna desde já provas da situação financeira do genitor devedor: comprovantes de renda, extratos bancários, declaração de desemprego, ou até mesmo a ausência de bens em seu nome.
Documente também, sempre que possível, indícios do patrimônio dos avós — como fotos de imóveis, veículos, ou informações públicas sobre atividade profissional. Isso facilita o trabalho do advogado na hora de fundamentar o pedido.
Se você é avô ou avó e está sendo cobrado, não deixe de comprovar sua própria situação financeira. Muitas vezes o valor pedido é desproporcional à sua capacidade real, e isso pode e deve ser demonstrado no processo, respeitando o princípio da proporcionalidade previsto no artigo 1.694, parágrafo 1º, do Código Civil.
Buscar orientação de um advogado especializado em Direito de Família desde o início evita erros processuais que podem atrasar a concessão da pensão ou, pior, levar à improcedência do pedido por falta de fundamentação adequada.
Considerações finais
A obrigação alimentar dos avós existe para proteger o interesse superior da criança, evitando que ela fique desamparada quando o genitor não consegue sustentá-la sozinho. Mas essa responsabilidade não é ilimitada, nem automática — ela depende de prova concreta, processo bem instruído e decisão judicial fundamentada.
Se você está enfrentando dificuldades para garantir o sustento adequado do seu filho, ou se está sendo cobrado indevidamente como avô ou avó, procure um advogado especializado para avaliar seu caso com atenção aos detalhes que fazem toda diferença no resultado do processo.
Dr. Marcos Duarte
Advogado · OAB/CE 15.358 · Especialista em Direito de Família e Sucessões
Fundador do Leis&Letras IA e da Revista Leis&Letras. Fundador e Ex Presidente do IBDFAM CE. Atua há mais de 24 anos em Direito de Família, Divórcio, Guarda e Inventários em Fortaleza/CE.





Publicar comentário